Por Hedislandes Gadelha DRT 4499 Paraíba-PB
A crise no transporte
coletivo urbano ganhou mais um capítulo que beira a ironia administrativa.
Diante do colapso iminente e da visível falta de ônibus para atender a
população, a prefeitura emitiu uma convocação emergencial voltada para
proprietários de vans e micro-ônibus. O objetivo? Salvar o município do caos
completo na mobilidade. O problema? O histórico de tratamento dispensado a
esses mesmos profissionais.
Para quem acompanha a
novela do transporte público, a medida soa, no mínimo, incoerente. Os "vanzeiros"
e proprietários de micro-ônibus, historicamente, sempre operaram sob a sombra
da marginalização do poder público.
O histórico de exclusão
Em tempos de normalidade,
a regra geral das gestões municipais sempre foi o aperto:
Falta de oportunidades: Editais de licitação
historicamente desenhados para favorecer grandes consórcios de ônibus.
Perseguição e fiscalização punitiva:
Barreiras, apreensões e uma rotulação quase constante desses profissionais como
"clandestinos" ou "concorrência desleal".
Portas fechadas: A recusa crônica em integrar
o transporte complementar de forma legal, organizada e digna na matriz de
transporte da cidade.
A "Calamidade
Seletiva" e a Armadilha Eleitoral
Agora, com o sistema oficial de ônibus de joelhos e a população revoltada nas paradas, a retórica muda da noite para o dia. A figura do vanzeiro, antes preterida, passa a ser vista como a "salvação da lavoura".
É a consolidação da política da conveniência: persegue-se na bonança, convoca-se na calamidade
No entanto, aceitar esse
chamado emergencial do prefeito pode se desenhar como uma verdadeira armadilha
financeira para a categoria. Ao se vincularem a esse contrato provisório com a
prefeitura, esses proprietários correm o risco de ficar de mãos atadas
justamente em um momento crucial: o período eleitoral. Aqueles que aceitarem a
proposta do município ficarão impedidos de alugar suas vans para os partidos
políticos e coligações — um serviço sazonal que historicamente representa uma
das fontes de renda mais importantes e garantidas para o setor.
Usar a categoria como
estepe de um sistema falido, comprometendo inclusive o faturamento privado e
legítimo desses trabalhadores durante as eleições, sem oferecer garantias de
transição para um modelo definitivo e justo de permissões, é uma atitude que
expõe as fragilidades e o egoísmo do planejamento urbano. O trabalhador do
transporte complementar não pode ser tratado como um botão de emergência que o
governo aperta quando as grandes empresas deixam os passageiros a pé.
O que o setor realmente
precisa
Se a prefeitura
finalmente reconheceu que as vans e micro-ônibus têm capacidade técnica e
capilaridade para suprir as demandas da cidade, o passo seguinte não deve ser
um chamado provisório de socorro que engesse o trabalhador. O que a categoria
exige e merece é:
1. Regulamentação
definitiva: Inclusão real no sistema de transporte com direitos garantidos.
2. Fim da política de
perseguição: Tratamento institucional respeitoso e focado na segurança, não na
exclusão.
3. Linhas justas: Oportunidade
de operar rotas lucrativas e viáveis, e não apenas o "resto"
rejeitado pelas grandes empresas.
A convocação atual deixa
claro que o transporte alternativo nunca foi o problema, mas sim parte da
solução que o poder público sempre insistiu em sufocar. Resta saber se, após
passar a tempestade e o período de urnas, os donos de vans voltarão a ser
vistos como vilões pelo mesmo sistema que hoje implora por sua ajuda.

Enviar um comentário