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Além das Grades: A Urgência da Saúde Mental dos Policiais Penais do Acre

Um episódio trágico nesta tarde chama atenção para uma crise silenciosa que se desenrola dentro do sistema prisional acreano.

Na tarde desta sexta-feira (29), um policial penal cometeu suicídio  em sua residência no bairro Mocinha Magalhães, em Rio Branco no Acre.

Nesta tarde, o sistema prisional do Acre foi atingido por uma onda de choque e tristeza. Um policial penal, colega e amigo de muitos, tentou contra a própria vida. Em um segundo episódio, ainda mais devastador, outro agente da segurança penal não resistiu e cometeu suicídio, consumando uma tragédia que deixa um rastro de luto e questionamentos.

Estes eventos, embora chocantes, não são isolados. Eles são o sintoma mais agudo de uma doença que corroe a categoria: a profunda crise de saúde mental que assola os profissionais encarregados de custodiar a população carcerária do estado.

A rotina de um policial penal no Acre é marcada por desafios imensos e often invisíveis. Eles operam em um ambiente de tensão constante, sob a pressão de superlotação, escassez de recursos, violência latente e o estigma social associado ao seu trabalho. Diariamente, testemunham realidades duras, lidam com a hostilidade e a desesperança dos custodiados, tudo isso enquanto carregam o peso de garantir a segurança dentro de um sistema que, muitas vezes, parece à beira do colapso.

Os Fatores de um Ambiente Adoecedor:

· Estresse Crônico e Trauma: A exposição diária a situações de conflito, ameaças e, em alguns casos, motins, pode levar ao desenvolvimento de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), ansiedade generalizada e depressão.

· Cultura do Silêncio: A profissão é tradicionalmente associada a ideais de força, resistência e invulnerabilidade. Falar sobre medo, angústia ou esgotamento é, muitas vezes, interpretado como fraqueza, criando uma barreira cultural que impede a busca por ajuda.

· Jornadas Exaustivas e Baixa Remuneração: Turnos longos, plantões intermináveis e uma remuneração que nem sempre condiz com os riscos da profissão geram desgaste físico, financeiro e emocional, contribuindo para o esgotamento (burnout).

· Falta de Apoio Institucional: A ausência de programas contínuos e eficazes de saúde mental, como psicólogos especializados, terapia em grupo e uma política de acompanhamento ativo, deixa o servidor desamparado para lidar com seus demônios internos.

O que aconteceu hoje é um grito de socorro que não pode ser ignorado. Não basta lamentar a tragédia; é imperativo agir. É urgente que a administração penitenciária e o governo do Estado reconheçam a saúde mental como uma prioridade de segurança institucional.

É preciso implementar, com caráter de urgência:

1. Programas de Apoio Psicológico Permanente: Criação de um setor de psicologia dedicado aos servidores, com atendimento confidencial, regular e especializado em trauma ocupacional.

2. Quebra do Estigma: Campanhas internas que normalizem a discussão sobre saúde mental, mostrando que buscar ajuda é um ato de coragem e profissionalismo.

3. Capacitação de Lideranças: Treinamento para que os gestores possam identificar sinais de alerta, como depressão e ideação suicida, em suas equipes e saber como encaminhar o profissional de forma adequada.

4. Melhoria das Condições de Trabalho: Avanços na infraestrutura, no quadro de efetivos e na remuneração são fundamentais para reduzir as fontes primárias de estresse.

Os policiais penais trabalham entre quatro paredes, mas seu sofrimento não pode ficar enclausurado. A morte de hoje é uma perda irreparável para uma família, para os colegas e para toda a sociedade acreana. Que essa dor não seja em vão. Que ela sirva como o catalisador definitivo para a construção de um sistema que cuide de quem está na linha de frente, garantindo que aqueles que guardam as grades também sejam protegidos por uma rede de apoio sólida e compassiva.

A vida de quem dedica sua carreira à custódia da sociedade precisa ser valorizada e preservada, dentro e fora do ambiente de trabalho.

A tragédia reforça a preocupação com a saúde mental dos profissionais da segurança pública, uma categoria frequentemente exposta a altos níveis de estresse. Se você ou alguém que conhece está enfrentando dificuldades emocionais, procure ajuda de profissionais especializados.

Ouça o áudio:


Por: Hedislandes Gadelha

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