Por Hedislandes Gadelha

Reportagem Investigativa — DRT 4499

RIO BRANCO, ACRE — Em uma decisão inédita e amplamente criticada na história político-administrativa da capital acreana, o ex-prefeito Tião Bocalom desferiu o que muitos juristas e moradores estão chamando de "golpe de misericórdia" no bolso da população de Rio Branco. Pouco antes de renunciar ao cargo de chefe do Executivo municipal com o claro objetivo de pavimentar sua candidatura ao Governo do Estado do Acre, Bocalom autorizou o protesto em cartório em massa de milhares de usuários com contas de água em atraso junto ao Serviço de Água e Esgoto de Rio Branco (Saerb).

A medida drástica pegou milhares de famílias de surpresa, sujando o nome de trabalhadores, pais e mães de família na praça, impedindo a obtenção de créditos, financiamentos e gerando um constrangimento público sem precedentes.

O Único Prefeito a Protestar o Cidadão

Nossa equipe de reportagem investigativa apurou que, historicamente, as gestões municipais anteriores sempre buscaram saídas negociadas para a inadimplência do saneamento básico, utilizando mecanismos como o Refis (Programa de Refinanciamento Fiscal), parcelamentos facilitados e campanhas de conscientização. Jamais, em administrações passadas, houve o uso da máquina pública para coagir o cidadão de forma tão agressiva através de cartórios de protesto de títulos.

Tião Bocalom entra para a história local com uma marca indigesta: o único prefeito de Rio Branco que teve a coragem de levar as contas de água do próprio povo a protesto cartorial.

Fontes internas ligadas à autarquia e à própria prefeitura confirmam que a pressa em aplicar a medida coercitiva teve motivações puramente fiscais e políticas — uma tentativa desesperada de inflar o caixa do município antes de sua desincompatibilização do cargo, sem medir as consequências sociais do ato.

Dois Pesos e Duas Medidas: Rigor com os Pobres, Isenção para os Ricos

O que torna a ação ainda mais escandalosa e revela o caráter seletivo da gestão é a grave denúncia apurada por esta equipe de investigação: enquanto a periferia e os bairros populares sofrem com o fantasma do nome sujo e cobranças implacáveis, os grandes condomínios e residências de luxo da capital desfrutam de uma gritante complacência fiscal.

Nossa apuração constatou que diversas dessas moradias de alto padrão, habitadas pelas classes mais abastadas da cidade, sequer possuem hidrômetros instalados para a medição e cobrança justa do consumo de água. O ex-prefeito e a direção do Saerb não demonstraram nenhuma preocupação em fiscalizar, taxar ou cobrar as contas dos mais ricos. Durante toda a gestão, houve uma total ausência de investimentos por parte da prefeitura na aquisição de novos hidrômetros ou na estruturação de equipes para realizar leituras regulares e precisas nessas áreas nobres. Na prática, quem tem mais condições consome água à vontade sem a devida contrapartida, enquanto a população de baixa renda arca com o ônus da truculência administrativa.

O Abandono da Prefeitura e o Reflexo na População

Para a opinião pública, o cenário desenhado pelo ex-prefeito é de puro oportunismo político e injustiça social. Ao mesmo tempo em que a prefeitura adotava uma postura implacável contra o contribuinte humilde, o gestor arrumava as malas para abandonar o mandato que recebeu nas urnas, visando uma cadeira no Palácio Rio Branco como governador.

O chamado "remédio amargo" de Bocalom, longe de se mostrar uma gestão eficiente, revelou-se um verdadeiro terrorismo administrativo. Moradores de diversos bairros da periferia relatam que o fornecimento de água do Saerb continua intermitente e de baixa qualidade — com muitas torneiras secas durante dias —, mas a cobrança via cartório chegou pontual e implacável.

"É o que sempre ajudam, o chamado 'presente de grego' antes de ir embora", desabafou um morador do Segundo Distrito que preferiu não se identificar, após descobrir que seu CPF estava negativado por uma conta de R$ 80,00. "Ele nos abandonou para tentar virar governador, mas deixou o nosso nome sujo antes de sair enquanto quem mora em mansão nem hidrômetro tem."

Nossa equipe de reportagem investigativa continuará acompanhando os desdobramentos jurídicos e as ações que movimentos sociais prometem protocolar contra os protestos em massa da era Bocalom. O espaço segue aberto para que a defesa do ex-prefeito se manifeste sobre a seletividade das cobranças, a falta de hidrômetros nos condomínios de luxo e a moralidade de tal ato contra o povo rio-branquense.


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