Reportagem Investigativa:
Hedislandes Gadelha (DRT 4499/PB)
Especial para o Portal
Giro Acreano
Rio Branco, AC — A
história política do Acre carrega uma identidade singular na Amazônia, moldada
não apenas pelas disputas tradicionais de oligarquias ou pela economia da
borracha, mas por uma profunda simbiose entre os movimentos sociais da floresta
e a ala progressista da Igreja Católica. Nas décadas de 1980 e 1990, o altar e
o palanque frequentemente compartilharam as mesmas lideranças na construção do
que viria a ser a "Frente Popular", coalizão liderada pelo Partido
dos Trabalhadores (PT) que governou o estado por duas décadas.
Nesse tabuleiro onde a fé e a militância partidária caminharam juntas, figuras expressivas do clero local cruzaram a linha do aconselhamento espiritual para ocupar espaços estratégicos de poder e de articulação política dentro da máquina pública estadual.
As Bases da Floresta: As
CEBs e a Teologia da Libertação
Para compreender a
ascensão do PT e o protagonismo dessas lideranças religiosas no centro do poder
acreano, é preciso recuar aos anos de chumbo e ao início da abertura política.
Sob a liderança intelectual e pastoral de figuras como Dom Moacyr Grechi, então
bispo de Rio Branco, a Igreja Católica local adotou as premissas da Teologia da
Libertação.
Por meio das Comunidades
Eclesiais de Base (CEBs), a Igreja descentralizou sua atuação e passou a
organizar politicamente seringueiros, ribeirinhos, indígenas e a população
periférica da capital. Foi nesse ecossistema de forte teor social que nasceram
os sindicatos de trabalhadores rurais e as lideranças que projetaram o Acre
para o mundo, como o ambientalista Chico Mendes. O PT acreano, portanto, nasceu
dentro das salas paroquiais e das reuniões comunitárias promovidas por clérigos
engajados.
Da Batina às Urnas: A
Militância de Padre Asfury
Nesse cenário, o Padre
José Raimundo Asfury destacou-se como um dos principais articuladores das
Pastorais Sociais. Seu forte carisma e capilaridade junto às comunidades
tradicionais da Amazônia rapidamente se converteram em capital político.
Diferente de outros
sacerdotes que mantiveram o apoio aos movimentos de forma indireta, Asfury
assumiu a militância partidária. Filiado ao Partido dos Trabalhadores, colocou
seu nome à disposição das urnas em pleitos profissionais, concorrendo ao cargo
de deputado estadual. Embora não tenha conquistado a cadeira no Legislativo,
sua votação e sua capacidade de mobilização consolidaram sua importância
estratégica dentro do partido.
O Palácio Rio Branco e o
Cargo na Assessoria Especial
Com a consolidação da
Frente Popular no governo do Estado a partir de 1999, a proximidade histórica
entre a militância católica e a gestão pública institucionalizou-se. Foi nesse
período que o Padre Asfury passou a exercer funções de confiança dentro da máquina
estatal.
Documentos e registros da
época apontam que sua atuação não se dava em secretarias finalísticas de
assistência social, mas sim no núcleo político e estratégico do governo. Asfury
foi lotado na Assessoria Especial do Governador, uma estrutura diretamente
vinculada ao Gabinete e que despachava em estreita sintonia com a Casa Civil.
A escolha não foi
meramente burocrática. O papel de Asfury no cargo comissionado era o de um
"embaixador" do governo junto aos movimentos populares e às
lideranças comunitárias. Em um estado de geografia complexa e conflitos
agrários latentes, a figura do padre-assessor funcionava como um canal de
amortecimento de crises e de diálogo direto entre o Palácio Rio Branco e as
bases que elegeram o projeto petista.
Padre Massimo Lombardi: A
Força Comunitária no Núcleo de Governo
O desenho da aliança
entre o clero progressista e o Executivo estadual ganha contornos ainda mais
robustos com a inclusão de outra vertente expressiva da Igreja acriana: o Padre
Massimo Lombardi. De origem italiana e com décadas de forte atuação missionária
e social no Acre — notadamente como reitor da Catedral Nossa Senhora de Nazaré
e, posteriormente, em áreas de extrema vulnerabilidade social, como o complexo
habitacional Cidade do Povo —, Massimo também teve seu trânsito pela estrutura
governamental.
A nomeação e a atuação de
Massimo Lombardi no aparato de governo, também por meio de funções
comissionadas, seguiam uma lógica complementar à de Asfury. Enquanto o papel
deste último concentrava-se na articulação e no controle de danos políticos no
interior e nas florestas, a presença de Massimo Lombardi trazia para a gestão
pública a chancela das pastorais urbanas e o diálogo com as periferias em
expansão, além do seu conhecido trabalho à frente do Instituto Ecumênico Fé e
Política. A presença de nomes como Massimo e Asfury na folha do Estado
sinalizava que o governo mantinha suas raízes profundamente fincadas no DNA
social católico.
O Debate sobre a
Laicidade e o Ecumenismo Político
A presença de sacerdotes
católicos proeminentes em cargos de comissão no primeiro escalão político
sempre orbitou em uma zona de intenso debate público no Acre. Opositores
políticos e alas mais conservadoras da própria Igreja frequentemente
questionavam os limites da laicidade do Estado e o uso da influência religiosa
na estrutura da administração pública.
Por outro lado,
defensores da inserção de figuras clericais no governo argumentavam que suas
presenças humanizavam a gestão e garantiam que as pautas socioambientais, a
segurança alimentar e os direitos das populações tradicionais e periféricas
permanecessem na agenda prioritária do Executivo.
O Legado de uma Era
A trajetória dos padres
Asfury e Massimo Lombardi reflete um capítulo histórico em que a fé, as
pastorais e a ideologia partidária se fundiram para redefinir as estruturas de
poder no Acre. Hoje, o cenário político do estado apresenta uma configuração
drasticamente diferente, com forte avanço de novas forças religiosas e a
mudança de espectro político no comando do Palácio.
No entanto, o registro
histórico dessas nomeações e a atuação direta de sacerdotes nos bastidores da
Casa Civil e das assessorias especiais do governo permanecem como um dos
exemplos mais contundentes de como a Igreja Católica foi, de fato, coautora da
história do poder executivo acriano nas últimas décadas.
Matéria assinada por
Hedislandes Gadelha — Jornalista Profissional (DRT 4499/PB). Todos os direitos
reservados ao Portal Giro Acreano.

Enviar um comentário