Uma análise sobre como o déficit habitacional e o preconceito social mantêm cidadãos à margem da dignidade, transformando galhos em abrigo na capital do estado.

No horizonte de um município que alimenta a expectativa da entrega de 1.001 casas populares, o contraste com a realidade das calçadas é gritante. Enquanto projetos governamentais tentam reduzir o déficit habitacional, uma parcela da população continua invisível — ou pior, visível, mas rejeitada por um sistema que pune a pobreza extrema.

O "Teto" de Folhas e Galhos

Nas redondezas dos bairros Betel e Nova Esperança, um cenário chama a atenção e incomoda quem passa: um homem, cuja sobrevivência depende da reciclagem, fez de uma árvore o seu endereço. Entre os galhos, estão pendurados os restos de uma vida que o asfalto não acolheu: um balde, uma mochila e uma rede armada ao relento.

A escolha de dormir nas alturas não foi um capricho, mas a última alternativa de quem foi barrado no chão firme. Vítima de uma desigualdade social que se manifesta no detalhe, ele relata que o dinheiro para o aluguel nem sempre é o único problema.

"Eu tento alugar, busco um canto, mas quando veem que sou catador, fecham a porta. Dizem que não aceitam que eu guarde meus materiais", relata o morador.

O Estigma da Sobrevivência

O caso deste catador de latinhas revela uma face cruel do mercado imobiliário informal: o preconceito estrutural. Mesmo com recursos para pagar um aluguel simples, o seu instrumento de trabalho — o material reciclável — é visto como "lixo" ou "estorvo" pelos proprietários de imóveis.

Para ele, as latinhas e baldes que recolhe são a garantia do pão; para os senhorios, são motivo para negação de contrato. Sem ter onde estocar sua fonte de renda, ele é empurrado de volta para a rua, criando um ciclo de exclusão que a construção de casas populares, por si só, não resolve.

Brasil: Um Gigante de Pés de Barro

A situação levanta um debate urgente sobre a eficácia das políticas públicas. O Brasil, embora figure entre as maiores economias do mundo, sofre com uma distribuição de renda abismal e uma corrupção endêmica que drena os recursos que deveriam garantir o direito constitucional à moradia.

Enquanto o dinheiro público muitas vezes se perde em labirintos burocráticos ou desvios ilícitos, o rastro deixado é de miséria. A falta de programas que integrem o acolhimento habitacional ao suporte social para trabalhadores informais deixa lacunas onde pessoas como o morador da árvore acabam caindo.

A Esperança no Horizonte

A promessa das 1.001 casas traz esperança para muitos, mas levanta o questionamento: quem terá a chave na mão? Se os critérios de seleção e a aceitação social não incluírem aqueles que hoje vivem em situações extremas, as casas serão entregues, mas as árvores e marquises continuarão ocupadas por quem o sistema insiste em ignorar.


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