BOCA DO ACRE (AM) – Quem
chega de fora pode pensar que está presenciando uma cena de filme de ficção ou
uma montagem para as redes sociais. No entanto, em Boca do Acre, ver uma casa
inteira — com telhado, varanda e janelas "desfilando" em cima de um
caminhão pelas ruas da cidade é apenas mais um dia comum.
A prática, que já se
tornou um símbolo da identidade local, divide opiniões entre o riso e o
espanto. Enquanto os moradores locais encaram com naturalidade, turistas e
recém-chegados costumam parar o trânsito (literalmente) para registrar o
momento que frequentemente viraliza em grupos de WhatsApp e páginas de memes.
Não é raro encontrar
vídeos nas redes sociais com trilhas sonoras engraçadas mostrando as manobras
arriscadas dos motoristas para desviar de fios de alta tensão e árvores.
Contudo, por trás da bizarrice visual e das risadas, existe uma motivação
profunda e, muitas vezes, urgente: a sobrevivência.
Boca do Acre é
geograficamente marcada pelo encontro dos rios Acre e Purus. Anualmente, o
ciclo das águas impõe um desafio aos moradores. Quando o nível do rio sobe e a
enchente ameaça invadir o lar, a solução mais rápida e econômica encontrada
pela população não é abandonar o imóvel, mas sim levá-lo para um lugar seguro.
A Logística da "Fuga
das Águas"
Diferente das construções
de alvenaria predominantes em outras regiões do país, a arquitetura de madeira
da região permite essa mobilidade. O processo é quase artesanal:
A casa é suspensa por
macacos hidráulicos;
Vigas de sustentação são
inseridas na base;
O caminhão (geralmente
modelos antigos e resistentes) manobra por baixo da estrutura;
A "viagem"
começa rumo a terrenos mais altos ou áreas livres da alagação.
"Para quem vem de
fora, parece loucura. Para nós, é a preservação do nosso patrimônio. É a nossa
casa fugindo da alagação", comenta um morador que já mudou de endereço
três vezes sem nunca trocar de paredes.
Embora cause estranheza, o transporte de casas é uma prova da resiliência do povo amazônida. O que começa como uma estratégia de defesa civil contra as cheias acaba se tornando um espetáculo à parte, reforçando a fama de Boca do Acre como um lugar onde o impossível é apenas uma questão de logística.
Enquanto as águas
continuarem subindo e descendo, as casas continuarão a passear sobre rodas,
provando que, em Boca do Acre, o endereço pode mudar, mas o lar permanece
intacto.

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